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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Gengibre & atividade física

Gengibre 

O nome científico do gengibre é Zingiber officinale. Essa planta indiana chegou ao Brazil no século 17, trazida com propósitos de cultivo medicinal pela Companhia das Índias Ocidentais, junto com café, alho, cebola, manga e outras. As propriedades medicinais da planta estão fortemente ligadas a um composto aromático chamado [6]-gingerol, que atualmente é usado como marcador químico do gengibre, na indústria fitoterápica. O [6]-gingerol é um inibidor da enzima ciclooxigenase-2, uma enzima essencialmente ligada aos processos de inflamação e dor.

Ciclooxigenases

A maioria dos lipídeos na membrana celular tem função constitutiva, para formar uma barreira contra água e sais. Alguns lipídeos da membrana celular, no entanto, têm função sinalizadora. São lipídeos com mais de 20 carbonos que servem de substratos para enzimas específicas, como as fosfolipases e ciclooxigenases. Quando a membrana é danificada ou um componente de bactérias é reconhecido (ex. lipopolissacarídeos da parede celular bacteriana ou mesmo toxinas), a célula ativa um conjunto de fosfolipases (fosfolipase C - PLC e fosfolipase A2 - PLA2) e ciclooxigenases (COX-1 e COX2). Cada tecido tem suas enzimas especificas, mas algumas são muito comuns. Os compostos resultantes dessas reações são diversos como as enzimas:

prostaglandinaefeito
PGI2vasodilatador
PGE2broncocontrição, vasoconstrição, modulação da secreção gástrica, contração uterina, lipólise e início da coagulação, ativação dos receptores de dor, ativação imunológica, regulação térmica no hipotálamo
PGF2contração de músculos lisos
TXA2início da coagulação, vasoconstrição

No hipotálamo, a PGE2 (prostaglandina E2) liberada pelas células (ou produzida ali mesmo por efeito de hormônios do sistema imunológico ativado) aumenta a temperatura corporal, causando a febre. Na pele e nos músculos, a PGE2 ativa os receptores de dor.

Como o [6]-gingerol bloqueia a COX2, seu efeito mais comum acaba sendo aliviar a febre e reduzir a dor causada por lesões na pele e nos músculos. Como a célula secretando PGE2 atrai neutrófilos e macrófagos que viajam pelo sangue, o [6]-gingerol também acaba reduzindo a inflamação dos tecidos que acontece depois de lesões.

Essa figura ao lado mostra leucócitos (células amarelas) atravessando a parede dos vasos para chegar até as bactérias (topo da figura). Essa atração (quimiotaxia) ocorre em resposta a componentes das bactérias que eles reconhecem, anticorpos e também prostaglandinas secretadas pelo tecido ao redor das bactérias. No caso de lesões musculares, não há bactérias: as células danificadas secretam PGE2 e atraem leucócitos do sangue.

O TXA2, produzido pelas plaquetas ativadas (lembra? células diferentes = prostaglandinas diferentes) causa vasoconstrição e inicia a formação de coágulos, o que aparece em azul na parte baixa da figura.

Na idade média, o chá de folhas do salgueiro (Salix alba) era usado como analgésico. Essa planta produz o ác. salicílico, que também é um bloqueador de ciclooxigenases. Em 1928, o composto foi isolado e potencializado na forma de ác. acetil-salicílico, o analgésico/anti-inflamatório mais comercializado até hoje.

Porque estou falando de inflamação e dor?

Durante uma atividade física, nem todas as fibras musculares são usadas. Quanto mais fibras são requisitadas pelo sistema nervoso, maior a força desenvolvida. Mesmo não usadas, porém, as fibras precisam ser distendidas e, para isso acontecer, as fibras de actina e miosina no citoesqueleto delas precisam deslizar umas sobre as outras. Na contração, actina e miosina são unidas pelo Ca2+; na distensão elas precisam estar livres de Ca2+ para ficarem soltas e deslizarem uma sobre a outra.

Normalmente, a eliminação de Ca2+ da células muscular é rápida. Assim que ocorre entrada de Ca2+ devido à ativação da fibra muscular, as Ca2+ ATPases (também chamadas de bombas de cálcio) reconhecem o cálcio no citoplasma e começam a consumir ATP para bombear ele para dentro do retículo e para fora da célula. Para ocorrer relaxamento da fibra, é preciso que 100% do Ca2+ seja removido do citoplasma. Na prática isso não é difícil, pois as bombas de cálcio existem em alta quantidade, na célula muscular.


Mas o nome Ca2+ ATPase significa que essas bombas de cálcio consomem ATP. Na verdade elas consomem MUITO ATP e são responsáveis pela maior parte da termogênese muscular. Como são muito necessárias, a célula precisa gerar muito ATP para elas funcionarem. Se essa produção começa a falhar, o Ca2+ não é 100% removido e um pouco dele vai se acumulando dentro da célula. Havendo Ca2+, actina e miosina se ligam! Na figura acima, SARCOLEMMA é a membrana externa da célula muscular. O retículo endoplasmático (SR) é um quadrado no centro da figura.

Com a acumulação de Ca2+ dentro das células musculares, elas vão adquirindo uma contração permanente. Todo mundo que pratica atividade física percebe isso ao final, quando os músculos parecem mais rígidos. O problema está em distender uma célula muscular que não consegue desligar as fibras de actina e miosina, por falta de ATP... Quando a célula em contração permanente é forçada a distender (porque existe um músculo opositor do outro lado, puxando o osso), ela sofre lesão. Muitas vezes essa lesão pode ser grande o suficiente para romper muitas células musculares. Normalmente, ela apenas desliga algumas células das suas vizinhas, mas isso já é suficiente para ativar as fosfolipases e ciclooxigenases da célula.


Se a célula não foi rompida, a PGE2 bloqueia a secreção de acetilcolina pelos neurônios. Ou seja: o músculo fatigado deixa de responder ao sistema nervoso. Quem já tentou usar um músculo fatigado sabe do que estou falando... Se as células musculares foram rompidas, muito pior: as prostaglandinas produzidas por elas (especialmente PGE2) extravasam em quantidade. Os neurônios sensoriais nos músculos detectam a PGE2 rapidamente, criando a sensação de dor. A PGE2 atrai leucócitos, que em algumas horas inflamam o músculo e liberam mais PGE2, aumentando a sensação de dor. Nessa figura acima, repare no círculo no 1, onde você vai encontrar as prostaglandinas iniciando a sensação de dor, com o sinal nervoso viajando até o córtex somatosensorial, onde o cérebro interpreta o que chamamos de "dor". Por isso, o exercício forçado causa dor, mas várias horas após o exercício pode ainda ocorrer um grande aumento na dor muscular.

O gengibre parece feito para combater esse tipo de fadiga muscular: o [6]-gingerol bloqueia a produção de PGE2, impedindo a diminuição do fluxo sanguíneo e a inflamação. O gengibre ainda possui um outro componente, o [6]-shogaol, conhecido por sua ação analgésica e de-sensibilizadora dos canais de Ca2+ chamados TRPV1, específicos dos neurônios sensoriais de dor.  Mais especificamente, os canais TRPV1 são específicos das chamadas fibras C lentas (sem bainha de mielina), ativados pelos processos inflamatórios. Agindo sobre esse tipo de neurônios, o [6]-shogaol faz com que não sintamos dor mesmo se os músculos tiverem sido lesionados.

Assim, ele diminui a entrada de Ca2+ na célula muscular, evitando que a fadiga ocorra. A figura ao lado mostra a contração de células musculares quando são adicionados K+ 80 mM (que causa despolarização por impedir a saída de potássio K+ pelos canais abertos) ou fenilefrina (PE 1 uM), uma droga que imita com precisão o efeito da noradrenalina. As duas situações foram usadas para forçar a contração da célula muscular, junto com doses de extrato de gengigre (Zo.Cr) variando de 0 até 10 mg/mL. Repare que, com 0.5 mg/mL (isso é muuuuuuuito gengibre, metade do que existe de glicose no sangue), o potássio não funciona mais. Acima de 1 mg/mL de gengibre (sangue  = quentão circulante, nessa concentração), a fenilefrina não funciona mais, também.


Referências
  1. Dean W, A botanica e apolitica imperial: a introdução e a domesticação de plantas no Brasil, Estudos Históricos, Rio de Janeiro 4(8):216-228, 1991.
  2. http://en.wikipedia.org/wiki/Prostaglandin
  3. Jolad SD, Lantz RC, Solyom AM, Chen GJ, Bates RB, Timmermann BN, Fresh organically grown ginger (Zingiber officinale): composition and effects on LPS-induced PGE2 production, Phytochemistry 65:1937–1954, 2004.
  4. Young HY, Luo YL, Cheng HY, Hsieh WC, Liao JC, Peng WH, Analgesic and anti-inflammatory activities of [6]-gingerol, J Ethnopharmacology 96(1-2):207-210, 2005.
  5. http://en.wikipedia.org/wiki/Mechanism_of_action_of_aspirin
  6. Ghayur MN, Gilani AH, Ginger lowers blood pressure through blockade of voltage-dependent calcium channels, J Cardiovascular Pharmacology 45(1):74-80, 2005.
  7. Fortier MA, Krishnaswamy K, Danyod D, Boucher-Kovalik S, P. Chapdelaine PJA, J Physiol Pharmacol 59 Suppl 1:65-89, 2008.
  8. Black CD, Herring MP, Hurley DJ, O'Connor PJ, Ginger (Zingiber officinale) reduces muscle pain caused by eccentric exercise, J Pain, 2010 (artigo disponível online, ainda não impresso).
  9. http://en.wikipedia.org/wiki/TRPV1



quinta-feira, 3 de junho de 2010

Um homem sério

FILME ESTRANHO

Tem gente que chama isso de super-cult. Para mim é simplesmente estranho. O filme começa com uma cena de mistério à parte da estória, que não se resolve. Um fantasma que sangra ou um velho que não sente dor? Uma coisa é certa: a esposa é a única que faz algo. O marido aceita qualquer coisa, seja fantasma ou não.

O que fica claro é que se trata de um filme sobre a comunidade judaica, talvez um filme criticando ela. Para quem é de fora, isso não fica claro, mas vele a pena ver para conhecer como era essa comunidade em 1947. Para um judeu, talvez seja escandalizador. Depois da inexplicável cena do fantasma, o resto da estória vai por essa linha. Muita coisa não se explica, só se tenta aceitar. Tem gente que fala que o filme é baseado no Livro de Jó. Discordo: o Livro de Jó tem propósito bem claro, no filme isso é muito questionável. O que o chefe de Larry Gopnik quer dizer com a insinuações que faz? Ele vai do nada a lugar algum, ao longo do filme, parece que só para estragar a pouca felicidade de Larry a troco de nada.

Em termos técnicos, o filme é excelente. Fotografia, ambiente social, atores, tudo genial. O enredo é um mistério. Quem fica procurando um propósito, uma trama maior onde tudo se explique, talvez não encontre. Quase todos os personagens são propositadamente previsíveis, talvez seja essa a lógica do filme: somente Larry e o filho fazem alguma coisa por conta própria. Todos os demais personagens parece que receberam um script bem pequeno, com um parágrafo só, dizendo "Faça isso assim e assim, a toda hora, em qualquer ocasião". Os rabinos, que deveriam orientar a comunidade: um se dedica a olhar o estacionamento, outro conta casos estranhos, enquanto "o grande rabino" fica eternamente pensando e bate papos curtos com garotos que realizam o B'nai Mitzvá (lê-se Bar Mitzváh). O vizinho de Larry: sua ocupação é jogar a bola de beisebol para o filho e pegar ela quando ele joga de volta, o dia todo. Para descansar, ele caça veados. O cunhado de Larry: talvez ele sofra de esquizofrenia - seu papel é ficar no banheiro ou rabiscando um suposto código secreto num caderno. Para quebrar a monotonia, ele se envolve em todo tipo de reprovação moral, como espionagem (estamos em 1947!), bebidas, prostituição, etc e sempre é trazido de volta por policiais. A esposa de Larry: seu papel é praticar um tipo de "bullying" ridicularizador do marido. Nisso, ela é auxiliada por sua contraparte, um vizinho que faz as piores coisas, sempre é educado e fala com Larry como se fosse seu melhor amigo. Ele é o estereótipo descarado da diferença entre o fazer e o falar. O garoto fortão: seu papel é correr atrás do filho de Larry. Nunca pega, mas sempre corre atrás, talvez emagreça assim. A filha de Larry: seu papel é lavar o cabelo e se enfeitar para sair. A vizinha: seu papel é seduzir Larry e fumar maconha, só isso.

A estória que junta essa gente toda é o desmoronamento completo da vida de Larry: emprego, família, status social, dinheiro, daí talvez citarem o Livro de Jó. Mas pára aí a semelhança: nada se resolve na vida de Larry, o filme simplesmente acaba, depois que apresenta todos os personagens, com ele sonhando formas de resolver seus problemas. O filho vai ao Bar Mitzváh completamente fumado, recobra seu rádio do rabino, volta a ouvir música enquanto o professor de hebraico fala feito a célebre professora do Charlie Brown. Vem um furacão? Talvez, nem isso fica claro.

Enquanto Larry e o filho navegam pelos problemas da vida criados pelos outros personagens, nada mais acontece. Talvez seja uma crítica da comunidade judaica, talvez seja uma crítica de 1947 e seus óculos pretos, talvez seja mais um sapato na moldura.



domingo, 30 de maio de 2010

Valhalla Rising

FILME BIZARRO

Desafio é entender o propósito dessa estória. O diretor é famoso, o filme é tecnicamente bom, mas o todo se parece com aquele grande pintor que um dia cola um sapato na tela e a pendura. Os comentários mais diversos surgem: "é uma afronta aos padrões sociais", "é lindo, de uma criatividade enorme", "é detestável", "é desafiador". Pode na verdade ser qualquer coisa...

A estória se passa no século XI, provavelmente, pois o filme começa mencionando o final da era viking. As montanhas com névoa lembram a Escandinávia. O guerreiro Um Olho carrega pinturas relacionadas a Oddin, e noutros tempos teria sido tratado como herói tribal, mas agora é um tipo de animal de rinha, para diversão e aposta dos chefes. Curioso usarem pinturas sagradas para isso! Entre os apostadores está um suposto cristão, que compra Um Olho. Enquanto o transferem de um local para outro, ele escapa e mata o grupo todo dos seus captores, colocando a cabeça do chefe viking como um monumento, sobre uma lança.

Um olho não fala, não tem expressão, só mata. O único indício de que ele realmente pensa são as premonições que ele tem quanto a si mesmo, seu plano de fuga e um estranho monumento que ele constrói. Em momento algum do filme há um sinal de felicidade, como se todos ali estivessem simplesmente tolerando seu sofrimento. Diversas vezes, dizem que Um Olho veio do inferno e que os leva para lá. Não dá para saber se isso é verdade: ele começa prisioneiro, depois se liberta e segue os outros, finalmente os outros passam a segui-lo. Porque? Talvez por não terem mais nada a seguir, e porque só ele não pára para lamentar nada.

Depois da fuga de Um Olho, o garoto que o acompanha vai se tornando um "profeta". No começo parece uma brincadeira com a mudez de Um Olho, depois ele parece acreditar no que diz. Os dois se unem a cruzados que vagam pelas montanhas destruindo as tribos vikings. Talvez Um Olho os odeie por isso, mas ele não mostra emoção mesmo... Tentando seguir para Jerusalém, todos os personagens tomam um barco que é envolto pelo nevoeiro e de alguma forma deriva nas correntes até a América do Norte. Em terra, o filme mostra como todos ali dependem das outras pessoas para viver. Um Olho dependia dos seus captores para querer fugir: sem eles, não vai para lugar algum. Os cruzados dependiam das tribos para atacar e conseguir mantimentos: agora passam fome e lutam entre si. Com excessão do garoto, que parece ter Um Olho como seu "oráculo", todos estão sem rumo e desesperados por um sentido para a vida. De sofrer em sofrer, um mata o outro (sem razão) até que poucos restem. Certa hora, um que havia se perdido do grupo reaparece, aparentando estar louco, todo pintado de terra e com desenhos na pele, para ser um outro profeta, que apenas desdenha dos líderes do bando.

Existe algo interessante nesse filme: apenas Um Olho e o menino-profeta são unidos. Cada qual dos cruzados tem seu próprio drama, sua própria ambição, como se pudesse fazer um tudo sozinho. Um quer riquezas, e repudia Deus quando vê que seu líder não vai conseguir nenhuma. O líder quer construir a SUA nova Jerusalém (ele se perdeu da original, mesmo), é esfaqueado pelo melhor amigo. Esse grande amigo, então, proclama que vai fazer a SUA nova Jerusalém. O profeta-louco seria seu consultor espiritual! Pelo menos o louco ri, nessa hora. Um Olho não quer nada, segue em frente.

Se olharmos para a passagem "Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam" (Sl 23:4), esse filme bizarro traz uma reflexão. Sem a vara e o cajado de Deus, o Vale da sombra da morte pode enlouquecer e de fato matar as pessoas. Um Olho tinha fé? Provavelmente não, mas ele pelo menos acreditava nas visões estranhas que mostravam seu próprio futuro. Andava para qualquer lugar, apenas realizando essas visões. O garoto tinha fé? Tinha fé em Um Olho, sabe-se lá porque. Ele não tinha pai, nem qualquer outro para seguir. Por eliminação, Um Olho seria sua melhor opção mesmo. Os cruzados tinham fé? Com certeza esses supostos cristãos não tinham. Viviam de saquear e matar, iam para Jerusalém atrás de riqueza e terras. Algumas vezes seu líder orava, mas o que ele queria era uma Jerusalém para si mesmo. Queria poder! Sem o cajado de Deus, que eles em nenhum momento lembraram que existia, estavam sozinhos no Vale da sombra da morte. Andavam rodeados de índios skraelings (os vikings chamaram assim os perigosos guerreiros das Américas) que vez por outra flechavam alguém, mesmo assim nem ao menos se ajudavam. Cada um por si, desesperados, seguindo um indivíduo totalmente enigmático.

Final triste para um filme triste: Um Olho chega ao local de sua última visão, e morre como ele mesmo havia previsto. Só o garoto fica, talvez para protagonizar o filme Desbravadores, mais tarde. Vale a pena ver, para refletir, não para esperar um épico cheio de ação. Nem trilha sonora ou som ambiente o filme tem. Se alguém entender o porque disso, me conta.

curiosidade: apesar de todo o cenário natural do filme, um único animal aparece em toda a filmagem, por talvez 2 segundos.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Obesidade e Trauma psicológico

a importância do Locus ceruleus

Para começar, essa é uma área de fronteira na neurociência, ou seja, muito do que se sabe é incerto ou recente demais. O ponto de encontro dos problemas é conhecido: o Locus ceruleus (LC). Trata-se de uma região no dorso do tronco cerebral composta por duas metades, com 25000 neurônios produtores de noradrenalina. Os neurônios do LC se ramificam por todo o cérebro, em espacial o hipocampo e amídala (órgãos de memória) e regulam 70-90% da atividade no córtex cerebral. Essa região controla ainda a produção de hormônios, pois tem muitas conexões com o hipotálamo, onde está a hipófise ou glândula-mestra.

O estresse aumenta a atividade dos neurônios no LC, resultando em maior atividade no córtex, maior fixação de memórias (especialmente as traumáticas), menor atividade sexual, menor atividade imunológica e perda de apetite. Claro, a intensidade desses efeitos varia bastante de acordo com os nutrientes e hormônios que o hipotálamo detecta no sangue de cada organismo. A ligação entre a amídala, o hipocampo e o LC geralmente é o principal alvo do estresse: tais conexões se fortalecem  e as memórias traumáticas (situações de perigo para o organismo) passam a influenciar cada vez mais o LC, aumentando sua atividade a ponto de que eventos de pouca importância podem se ter atuação nefasta sobre parâmetros hormonais e concretizarem anomalias em todo o organismo. Nos pacientes de trauma, essa situação é descrita como freqüentes ocorrências de super-atividade do LC. As causas dessa ativação dificilmente têm a ver com perigos reais.



O LC é regulado por neurônios serotonérgicos do tronco cerebral relacionados ao ciclo dia/noite (não mostrados no esquema), pelo hipotálamo, por memórias (os neurônios dos centros de memória são produtores de glutamato) e por uma auto-regulação onde o próprio LC inibe sua atividade. No trauma psicológico, tanto a estimulação pelos centros de memória aumentam como a auto-regulação é perdida. Estudos feitos com veteranos de guerra mostraram, por exemplo, que 30% dos neurônios no LC haviam sido perdidos. Essa morte de neurônios faz com que os restantes aumentem sua resposta aos centro de memória e ao hipotálamo. Em outras palavras, ao invés de um aumento graduado do estresse em resposta ao ambiente, como seria normal, o LC de pacientes traumáticos mostra uma atividade abaixo do normal na maioria das situações e um aumento súbito de atividade em resposta a certas "situações-gatilho".

Os efeitos da má-regulação no LC são percebidos pela oscilação do seu poder analgésico e seus efeitos sobre o sist. nervoso autônomo (simpático + parassimpático), que controlam o funcionamento de órgãos, glândulas e músculos lisos. O aumento súbito de atividade no LC assim causa aumento da freq. cardio-respiratória (coordenada pelo núcleo parabraquial, no tronco cerebral), ativação súbita da sudorese (ativada por nervos simpáticos sob a pele), aumento de pressão arterial (maior freq. cardíaca + contração das artérias por efeito de nervos simpáticos ao longo dos vasos), paralização dos movimentos intestinais (diminuição da atividade no nervo vago, que se origina no núcleo parabraquial) e mesmo paralisia muscular (ação da noradrenalina em núcleos cerebrais ligados ao movimento) e amnésia (ação inibitória de altas doses de Nor nos centros de memória). Num outro extremo estão os efeitos da perda de atividade do LC em todas as situações que não são situações-gatilho: apatia (falta de Nor no córtex cerebral), déficit de desempenho e menor catabolismo de gorduras. Eis onde caminhamos para a obesidade...

Ao que parece, a desregulação no LC já é suficiente para perturbar o controle da ingestão alimentar, que ocorre no hipotálamo. Esse conjunto de neurônios é altamente sensível a todos os componentes do plasma sanguíneo, de nutrientes a sais e hormônios. Teoricamente, um aumento na concentração plasmática de lipídeos e glicose, combinada com alguns hormônios secretados em resposta à alimentação, como a insulina, seriam capazes de criar no hipotálamo a sensação de saciedade. Se esse mecanismo falha, ingerimos mais do que as nossas necessidade energéticas. Como a baixa quantidade de noradrenalina produzida pelo LC inibe o apetite como deveria, a maioria dos pacientes traumáticos apresenta maior consumo de calorias. O destino para esse excesso é bem conhecido: ser consumido na produção de calor pelo organismo ou ser armazenado em depósitos de gordura. A primeira opção é altamente regulada pelo sistema simpático, sob influência do LC.

O sistema simpático não se origina do LC mas sim dos núcleos laterais, que recebem informações do hipotálamo, de neurônios sensoriais próprios e também do LC. A função desses núcleos é re-adaptar o funcionamento de órgãos e glândulas a cada modificação da composição do sangue, como jejum, alimentação, exercício, frio/calor, posição deitada/sentada/em pé, etc. Os núcleos laterais são independentes entre sim, mas co-relacionados. Entre as funções do sistema simpático também está ativar a produção de calor nos músculos esqueléticos e no fígado, funções que são aumentadas pela atividade no LC e, no caso dos pacientes traumáticos, permanece diminuída a maior parte do tempo. Somando-se maior ingestão calórica e menor gasto de energia no aquecimento do corpo, chegamos à obesidade. Os índios Pima, que vivem na fronteira entre o México e os EUA, são notórios por sua baixa atividade simpática e elevada facilidade para estocar gorduras. No lado americano da fronteira, os Pima têm hoje uma incidência assustadora de doenças relacionadas à obesidade.


Pima: Originários do extremo norte, os Pima se fixaram na fronteira entre o México e os EUA. No lado mexicano da fronteira, 8% dos Pima têm diabetes tipo 2. Esse valor é normal, se tomamos uma população branca qualquer. No lado americano, 50% dos Pima são diabéticos.

A pergunta que fica é: como reverter isso? Boa parte dos pacientes traumáticos tem distúrbios também na produção de serotonina, um neurotransmissor associado à estabilidade de humor, ao ciclo sono/vigília e também um dos principais ativadores do LC. Isso significa noites mal-dormidas, humor instável e... baixa atividade do LC. Uma das fronteiras da indútria farmacêutica é o desenvolvimento de antidepressivos (sim, eles regulam a produção de serotonina) capazes de re-estabelecer o funcionamento adequando do LC. Não se sabe, contudo, se a perda de neurônios nessa região é um fenômeno agudo ou leva muitos anos para acontecer. Na 2a hipótese, seria possível preservar o LC com uso de fármacos, alteração no estila de vida (a produção de serotonina é especialmente sensível a ciclos bem definidos de atividade/repouso), etc.

Referências
  1. Aston-Jones G, Cohen JD, An integrative theory of locus coeruleus-norepinephrine function: adaptive gain and optimal performance, Ann Rev Neurosci 28:403–50, 2005.
  2. Bracha HS, Macy C, Lenze SM, Shelton JM, Tsang-Mui-Chung M, The Locus Ceruleus in PTSD, Cogprints UK 2009.
  3. Bracha HS, Garcia-Rill E, Mrak RE, Skinner R, Postmortem locus coeruleus neuron count in three American veterans with probable or possible war-related PTSD, J Neuropsych Clin Neurosci 17(4):503–509, 2005.
  4. Bracha S, Anxiety and posttraumatic stress disorder in the context of human brain evolution: a role for theory in DSM-V?, Clin Psychol Sci Prac 15(1):91-97, 2008.
  5. Canavero S, Bonicalz V, Letter to the editor, Pain 107:27-27, 2004.
  6. Campbell BM, The science of panic, Ansiety Community, 22-out post, stanford.wellsphere.com.
  7. Pertovaara A, Noradrenergic pain modulation, Prog Neurobiol 80:53–58, 2006.
  8. Ravussin E, Tataranni PA, The role of altered sympathetic nervous system activity in the pathogenesis of obesity, Proc Nutrit Soc 55:793-802, 1996.
  9. Troisi RJ, Weiss ST, Parker DR, Sparrow D, Young JB, Landsberg L, Relation of obesity and diet to sympathetic nervous system activity, Hypertension 17:669-677, 1991.









terça-feira, 13 de outubro de 2009

Defendendo Brüno?

Pensar não faz mal

Difícil dizer o que Brüno significa. O filme parece mais feito para ser discutido do que assistido. O diretor Larry Charles e os produtores (que incluem o próprio ator Sacha Baron Cohen) parecem ter criado um personagem do tipo "A praça é nossa" ou "Zorra total", um gay totalmente estereotipado de quem absolutamente ninguém poderia gostar. O comportamento de Brüno é apelativo (exageraram na pornografia, né?) e ele consegue ser mais egocêntrico do que o Melvin Udall (Jack Nicholson) de "Melhor é Impossível". Mas quem faz um filme desse tipo, do qual não se espera que pessoa alguma goste, pode estar querendo dizer algo.

Brüno não é detestável por ser gay. Ele também seria detestável se fosse negro, muçulmano, cristão, chinês, alienígena, etc. O que ele mostra é um egocentrismo implacável a ponto de comprar (pelo correio) uma criança africana para supostamente se parecer a alguns atores de Hollywood que adotaram crianças da África. Ele consegue ofender cada um dos grupos étnicos, religiosos, sexuais, etc que encontra pelo caminho. Porque é gay? Não. Ele ofende porque descaradamente tenta usá-los como trampolim para a própria fama. Brüno tenta usar todos que vê pela frente. Será que ele seria tão detestável se fixasse sua atenção em um só grupo? De repente ele poderia ter mais sucesso se insistisse alguns anos como estilista de ternos de velcro... Mais um ponto para Brüno, de quem nem os estilistas escaparam.

Penso que, do seu jeito, Brüno personifica vários personagens com os quais convivemos. Ou pelo menos os norte-americanos. Estilistas que criam roupas incabíveis para se usar, atores que tentam aparecer mais que o seu personagem, entrevistadores que não questionam e não escutam os entrevistados, modelos que usam apelativos sexuais ao invés da beleza, pacificadores que não cansam de mostrar seus "bons atos" em campanha política, e por aí vai. Alguém já viu isso? De uma forma escrachada, Brüno é um tipo de Frankenstein feito ao contrário, isto é, com as piores partes de muita gente que estamos acostumados a ver e achar bonito.

Um dos pilares da propaganda é mostrar um detalhe bonito para que achemos o todo bonito. Aquele ator é caridoso, então deve interpretar bem. Aquela mulher tem belos seios, então deve ser boa atriz. Aquele político tenta resolver conflitos dos outros, então deve ser bom administrador. Aquele estilista grita em público, então deve fazer boas roupas. Brüno escandaliza ao juntar tudo isso, e daí não tem como alguém gostar dele. O filme, claro, é ruim. Mas nunca sem sentido.



terça-feira, 6 de outubro de 2009

porque o pus tem cheiro adocicado


Porque o pus tem cheiro adocicado?

O que chamamos de "pus" é um exudato composto de restos de células imunológicas, células lesadas do tecido, microorganismos mortos ou vivos e proteínas do plasma. As substâncias, condições ou microorganismos que causam a formação de "pus" são chamados de piogênicos. Quando esse "pus" está retido dentro do tecido, recebe o nome de abcesso. Como a maior parte dos leucócitos circulantes são neutrófilos (40-75% do total), eles migram para a lesão atraídos por fatores quimiotáticos como proteínas intracelulares, histamina (secretada pelos vasos), interleucinas (secretadas pelas 1as células imunes a chegar no local), substância P (P de PAIN = DOR, é uma proteína liberada por neurônios danificados) e lipo-poli-sacarídeos de bactérias. Esses neutrófilos fagocitam as células danificadas e microorganismos, depois morrem. Seus restos atraem macrófagos, que também fazem fagocitose e depois morrem. O "pus" ou liquor puris ainda contém fibrina (uma proteína envolvida na coagulação) e por isso é viscoso.


A coloração do pus geralmente é amarelada, como o plasma (essa é a cor da albumina, a principal proteína do plasma). Algumas células imunes podem secretar mieloperoxidase no local, uma enzima (verde) capaz matar bactérias. Também, o pus pode conter restos de proteínas coloridas do tecido. Abscessos no fígado costumam ser, por isso, de cor castanho-escura. Se houver restos de hemoglobina, ele pode ser avermelhado ou escurecido (presença de pequenos coágulos) (http://en.wikipedia.org/wiki/Pus).

Algumas bactérias, especialmente as gram-negativas, são resistentes ao ataque imunológico e proliferaram sobre a ferida, alimentando-se do pus. Essas bactérias (ex. Staphylococcus, Streptococcus, Pseudomonas, Clostridium) secretam enzimas capazes que digerir o tecido ao redor da ferida, dificultando a cicatrização. Algumas gram-negativas ainda contém substâncias que desfazem as fibras de colágeno no tecido. Os lipo-poli-sacarídeos dessas bactérias atraem neutrófilos circulantes, de forma que o exudato é produzido continuamente (Ovington L, Bacterial toxins and wound healing, Ostomy Wound Management 49(7A):8-12, 2003). A colonização da ferida por essas bactérias é favorecida por irrigação inadequada do tecido, desnutrição, doenças imunológicas, diabetes, cirurgias recentes, radioterapia, fumo e uso de drogas ou álcool (Sarvis, CMRN et al., Calling on NERDS for critically colonized wounds, Nursing 37(5):26-27, 2007).

As bactérias Pseudomonas aeruginosa e Proteus mirabillis, em especial, são microorganismos responsáveis por grande parte das infecções hospitalares. Quando infectam feridas, se alimentam do tecido vivo ou já digerido e o seu metabolismo produz substâncias com cheiro característico :

Pseudomonas aeruginosa - odor adocicado, coloração azulada.

Proteus mirabilis - odor de amoníaco.

Apesar disso, as feridas não-cicatrizantes são caracterizadas por uma diversidade grande de microorganismos. Bactérias gram-positivas como Escherichia coli têm a membrana exposta ao ataque imunológico e suas infecções costumam ser breves (menos de 1 mês). As gram-negativas citadas acima são responsáveis pela maior parte das infecções em feridas não-cicatrizantes (Sarvis, CMRN et al., Calling on NERDS for critically colonized wounds, Nursing 37(5):26-27, 2007). Bactérias do gênero Pseudomonas como P. aeruginosa (a mais comum), P. maltophilia, P. cepacia, P. fluorescens, P. testosteroni, P. acidovorans, P. alcaligenes, P. stutzeri, P. putrefaciens, and P. putida são comuns em hospitais e resistem à maioria dos microbicidas usados para fins de limpeza (Professional guide to diseases 9th edition 2008, p. 942, Ed. Lippincott Willians & Wilkins).

Entre as bactérias mais comumente encontradas em feridas não-cicatrizantes estão Streptococcus pyogenes, Staphylococcus aureus (produz vitamina K e alimenta o crescimento da Prevotella melaninogenica), Pseudomonas aeruginosa, Porphyromonas (coloração escura), Klebsiella pneumoniae (produz succinato e alimenta o crescimento da Prevotella melaninogenica), Prevotella m. (bactéria 2ária, aparece quando as bactérias aeróbicas já consomem todo O2 na região da ferida), Fusobacterium sp., Peptostreptococcus sp., Clostridium perfringes (gangrenas), Enterococcus faecalis e Eikenella corrodens (Bowler PG, Duerden BI, Armstrong DB, Wound microbiology and associated approaches to wound management, Clinical Microbiology Reviews 14:244-269, 2001). Essas bactérias anaeróbicas fermentam os restos de proteína na ferida e os convertem compostos nitrogenados voláteis, que causam mal-cheiro (http://www.breezecare.com/infobb/badbreathsmells.html):


composto..........fórmula..........odor
metil-mercaptano..........
CH3SH..........fezes
ác. sulfídrico
..........H2S..........ovos podres
dimetil sulfeto
..........CH2SCH3..........repolho em decomposição
skatol
..........3-metil-1H-indol..........naftalina
cadaverina
..........C5H14N2..........animal morto
putrescina
..........NH2(CH2)4NH2..........carne em decomposição
isovalerato
....................queijo velho
2-aminoacetofenona....................frutas maduras*
amônia..........NH3..........amoníaco**


*P. aeruginosa (Cox CD, Parker J, Use of 2-aminoacetophenone production in identification of Pseudomonas aeruginosa, J. Clinical Microbiology 9(4):479-484, 1979).
** Proteus mirabillis.


Devido ao odor característico de algumas bactérias, como a Pseudomonas aeruginosa, existem grupos desenvolvendo sensores de odor eletrônicos capazes de reconhecer esses patógenos em ambientes hospitalares (Chang HC, Kish LB, King MD, Kwan C, Identification of bacteria by patterns generated from odor spectra, eprint arXiv: 0902.1368, 2009 - adsabs.harvard.edu).


quinta-feira, 5 de março de 2009